«SÓ A SAÍDA DO EURO EVITA DÉCADAS DE ESTAGNAÇÃO»
«SÓ A SAÍDA DO EURO EVITA DÉCADAS DE ESTAGNAÇÃO»
No livro «Porque devemos sair do euro» o economista João Ferreira do Amaral diz que a estrutura produtiva portuguesa não aguenta uma moeda tão forte
PERFIL
A voz no deserto contra o euro
João Ferreira do Amaral, 65 anos, professor catedrático aposentado do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) tem expresso reservas veementes à participação portuguesa no euro desde os anos 90. Na altura, esteve (quase) sozinho contra a multidão de vozes que defendiam a entrada de Portugal na moeda única. "Fiz parte do grupo de críticos da nossa participação e esforcei-me por alertar para o risco que corríamos. Tentei inclusivamente que se compreendesse que, no mínimo, deveríamos adiar a nossa participação no euro. Outros, embora pouco numerosos, também o fizeram. Em vão. A espessa incompreensão do que estava em causa com a unificação monetária europeia, misturada com uma mal disfarçada ganância por fundos estruturais comunitários — que nos eram dados em dose reforçada para aderirmos à moeda única — levaram a melhor", recorda no livro "Porque devemos sair do euro — o divórcio necessário para tirar Portugal da crise". A história encarregou-se de mostrar que os riscos para que alertou eram, de facto, importantes. E muitos já se concretizaram.
O título do novo livro de João Ferreira do Amaral, "Porque devemos sair do euro — o divórcio necessário para tirar Portugal da crise", não deixa margem para dúvidas sobre a posição do autor em relação à integração portuguesa na moeda única.
"Escrevi o livro porque tenho a sensação de que estamos a chegar ao limite do suportável em termos de permanência na zona euro", avança.
Um retraio negro que o economista traça logo na introdução da obra, que será lançada a 9 de abril:
"À economia portuguesa está destroçada, o Estado em bancarrota, o país nas mãos de credores e sujeito a políticas ditas de ajustamento que reforçam esse domínio;
os jovens portugueses desesperam e veem-se obrigados a emigrar;
o desemprego ultrapassa todos os máximos anteriores;
a própria sobrevivência de Portugal está em risco."
É o resultado de erros acumulados nas políticas seguidas mas, também, e em grande medida, "da integração portuguesa no euro", salienta.
Euro é demasiado forte
O livro apresenta um raciocínio claro, que qualquer leitor informado poderá acompanhar.
Aqui não encontrará modelos matemáticos.
Foi esse o propósito de João, Ferreira do Amaral. "A ideia é que seja percetível por todas as pessoas que tenham alguma cultura, mesmo que não tenham formação de Economia", explica.
"Preferi sacrificar algum rigor em termos de 'economês' para ser percetível para um público amplo."
O objetivo é "dar uma contribuição para que os portugueses possam compreender melhor como foram arrastados pa¬ra um projeto que o país não tinha condições para abraçar".
A começar pela "estrutura produtiva portuguesa que não aguenta uma moeda forte como o euro, criado à imagem do marco alemão", frisa João Ferreira do Amaral.
Os resultados estão à vista: "Uma moeda demasiado forte gerou elevados défices com o exterior que, acumulando-se ao longo do tempo, geraram uma dívida externa insustentável e que cortou praticamente o crédito externo privado a Portugal desde que a crise teve início", lê-se no livro.
Culminando na quase bancarrota do Estado em 2011.
Mais ainda: "Não é possível fazer a reestruturação necessária da economia portuguesa dentro da moeda única", alerta João Ferreira do Amaral. Por isso, não tem dúvidas: Portugal tem de sair. "A prioridade das prioridades deve ser repor o equilíbrio na nossa estrutura produtiva entre a produção de bens transacionáveis e não transacionáveis."
Só assim a economia poderá voltar a crescer. O que exige "um intenso choque competitivo que, para ser suscetível de ser suportado pela população tem de provir, necessariamente, da desvalorização cambial. De outra forma, o choque competitivo será de tal forma doloroso do ponto de vista social que a população não o suportará", considera.
"A saída é uma condição essencial para evitar a estagnação durante décadas e para manter um mínimo de autonomia em termos políticos." Mas, "não nego que tem riscos. A verdade é que também o tem qualquer operação cirúrgica que infelizmente precisemos de fazer. Sofrer uma intervenção cirúrgica é arriscado e doloroso. Mas, muitas vezes, é a única forma de salvar o doente".
Contudo, "a saída não deve ser feita de qualquer maneira. Deve ser controlada", frisa João Ferreira do Amaral, alertando para "um desastre se fôssemos empurrados para fora do euro". Situação que considera inevitável, "se persistirmos em manter-nos lá a todo o custo".
Para o economista "há condições para um divórcio de mútuo consentimento", já que será benéfico também para os outros países da moeda única.
Por isso, "não me parece inviável obter o apoio das instituições comunitárias e dos Estados-membros para uma saída controlada do euro". O que "não significa sair da União Europeia", aponta, defendendo uma pertença 'à inglesa', com maior distanciamento, a par do reforço dos laços atlânticos lusos: "Temos um continente à nossa espera: a América."
SÔNIA M. LOURENÇO
economia@expresso.impresa.pt
FRASES
Pecado Original
«Ao estabelecer uma moeda única para uma zona muito diversificada, a emissão monetária deixou de ser adequada às economias que formam essa zona.
E ao impedir o Banco Central Europeu de emprestar dinheiro aos Estados, colocou-os nas mãos dos mercados financeiros»
O Euro e o Projecto Europeu
«Poderá ter lançado a Europa num processo irreversível de decadência e de ressentimentos amargos, como os que actualmente emergem e não se viam desde a II Guerra Mundial»
As Elites Portuguesas
«O espesso manto de iliteracia económica que as afecta, a suficiência bacoca e a total ausência de sentido crítico que as caracteriza fazem de Portugal um dos países da Europa com piores elites»
