CHIPRE ABRE A PRIMAVERA DO EURO

CHIPRE ABRE A PRIMAVERA DO EURO

CHIPRE ABRE A PRIMAVERA DO EURO
Luís Gonçalves
luis.goncalves@sol.pt

BCE lança ultimato e exige acordo até segunda-feira.
Nicósia propõe alternativas e tenta um acordo com a Rússia
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A turbulência regressou em força à zona euro de forma inesperada e oriunda de um destino improvável.
Esta semana, a crise do euro agudizou não por culpa de problemas políticos em Itália ou uma crise bancária em Espanha, mas sim pelo resgate da troika ao Chipre.
Uma economia que vale 0,2% do PIB dos 17 países da moeda única e cuja intervenção era negociada há nove meses.

A medida inédita de recorrer aos depósitos bancários para financiar parte dos 15,8 mil milhões do resgate através de uma taxa de 6,97% para depósitos inferiores a 100 mil euros e de 9,99% para valores acima desse patamar, provocou a indignação dos cipriotas e lançou ondas de choque nos outros países.

O acordo fechado no sábado de madrugada pelos ministros das Finanças do Eurogrupo surpreendeu tudo e todos.
Primeiro, por violar as leis europeias - os depósitos até 100 mil euros estão integralmente garantidos na zona euro.
Segundo por estar a penalizar os depositantes e não os accionistas ou investidores dos bancos.

Nos dias seguintes, a crise política estava instalada com nenhum dos intervenientes (Chipre, Comissão Europeia, Eurogrupo, Alemanha) a assumir de quem tinha sido a ideia de pela primeira vez usar o dinheiro dos depositantes para financiar um resgate.

O chumbo por unanimidade do parlamento cipriota da proposta da troika e a abertura de negociações para um apoio da Rússia (a extensão de maturidades do empréstimo de 2,5 mil milhões de euros feito por Moscovo em 2011 ou um resgate de 10 mil milhões por troca do gás cipriota), acabou por extremar as posições entre o Chipre e as autoridades europeias.

Ontem, a Europa decidiu usar 'artilharia pesada'.
O Banco Central Europeu lançou um ultimato inédito ao Chipre, exigindo um acordo com a troika até segunda-feira sob pena de cortar o financiamento à banca do país.
Já o Eurogrupo - que reúne os ministros das Finanças do euro - reiterou que uma crise cipriota vai afectar Portugal, Irlanda e restante 'periferia'.

Esta estratégia pretende eliminar a opção russa e pressionar Nicósia a encontrar uma solução para os 5,8 mil milhões de euros que precisa para o resgate.

BRUXELAS E BCE NÃO RECUAM NA IDEIA DE TAXAR OS DEPÓSITOS BANCÁRIOS

Para já, a Europa está aberta a negociar mas deu sinais de que não irá abdicar de taxar os depósitos.
Ontem, Governo e Parlamento cipriotas discutiam formas de encontrar os 5,8 mil milhões de euros.
Uma das propostas era isentar os depósitos abaixo de 100 mil euros e cobrar uma taxa de 5% aos restantes.
Outra apontava para uma taxa de 3% até 100 mH, 7% até 500 mH e 9% para os restantes.
A estas medidas, juntavam-se a transferência para o Estado dos fundos de pensões de empresas públicas e a venda de ouro, imóveis do Estado e património da Igreja ortodoxa para financiar um fundo de apoio à economia.

As negociações entre o Chipre e a Europa prosseguem no fim de semana, mas os bancos só deverão abrir na terça-feira.