SETE VERDADES TRIKISTAS QUE AFINAL NÃO O ERAM Cem por Cento, por Nicolau Santos
22-04-2013 18:01SETE VERDADES TRIKISTAS QUE AFINAL NÃO O ERAM
Cem por Cento, por Nicolau Santos
E à sétima avaliação, quebrou-se o encanto da União Europeia com o ajustamento por¬tuguês. Desta vez, a palavra sucesso ficou reservada apenas para os bravos irlande¬ses. Algo se passou, claro. E não foi o chumbo do Tribunal Constitucional, porque a avaliação de Bruxelas ocor¬reu antes disso. Ao longo destes quase 24 meses, Bruxelas, Berlim, a troika e o Governo venderam-nos sete verda¬des incontornáveis. Agora, prova-se que as notícias sobre tais verdades eram manifestamente exageradas.
1.ª - O memorando de entendimento está muito bem desenhado
Quando foi conhecido, o memorando mereceu os maiores elogios de muitos indígenas altamente responsáveis.
Como tinha sido possível a técnicos estrangeiros desenhar em tão pouco tempo um programa tão bom?
Tratava-se de um guião magnífico, que tocava nos pontos essenciais (reformas, Estado e banca).
Como alguns (poucos) moicanos sublinharam logo na altura, o pacote financeiro era manifestamente escasso (faltavam cerca de €25 mil milhões para financiar a reestruturação das empresas públicas de transporte) e contemplava outros objetivos manifestamente inexequíveis.
Além disso, o memorando ignorava olimpicamente tudo o que fossem medidas para estimular a economia.
2.ª - O Não há falta de financiamento para a economia
Ainda Poul Thomsen, o homem dos gelados olhos azuis, liderava as missões da troika que visitavam Portugal e já a pergunta lhe era feita.
A resposta era taxativa: não há nenhuma evidência de que exista um credit crunch na economia.
Abebe Selassié sucedeu a Thomsen e a resposta não se alterou.
O Governo afinava pelo mesmo diapasão.
Mas bastava falar com meia dúzia de pequenos e médios empresários para perceber o que se estava a passar.
Agora, até o primeiro-ministro reconhece que o dinheiro não está a chegar à economia e quer obrigar os bancos a emprestar dinheiro às PME.
3.ª - Não será necessário nem mais tempo nem mais dinheiro para proceder ao ajustamento
A ideia foi martelada até à exaustão por Passos Coelho e Vítor Gaspar, acompanhados por Durão Barroso, Jean-Claude Juncker e Abebe Selassié.
Pois bem: as taxas de juro dos empréstimos já desceram após o perdão à Grécia.
Mais recentemente, Gaspar pediu, sem se rir nem apresentar desculpas, mais sete anos para pagar os 78 mil milhões de euros.
E fala-se cada vez com mais insistência na necessidade de um segundo resgate.
Para mal dos nossos pecados e incompetência dos que delinearam e aplicaram este ajustamento, lá chegaremos.
4.ª- Portugal regressa aos mercados em setembro de 2013
Foi outra garantia dada por Passos, com Gaspar a assinar por baixo.
E o país foi acreditando, já que as taxas de juro da dívida soberana caíram de forma assinalável desde há alguns meses.
Houve, claro, quem atribuísse todo o mérito ao ministro das Finanças e à credibilidade de que goza junto do Banco Central Europeu e dos seus colegas do Eurogrupo.
Quem tal afirma esquece as declarações de Mário Draghi, presidente do BCE, no verão de 2012, ameaçando utilizar todo o poder de fogo do BCE para defender o euro, a partir das quais houve uma generalizada descida dos juros da dívida soberana de todos os países da eurolândia.
Depois das reticências sobre o processo de ajustamento nacional expressadas na sétima avaliação da troika (ainda antes do chumbo do TC), e da quebra dos acordos político e social em torno do memorando, começa a ser evidente que o regresso de Portugal aos mercados não só não será em setembro deste ano, como quando ocorrer necessitará da rede de segurança do BCE para que se faça com taxas de juro aceitáveis.
5.ª - A economia vai começar a recuperar a partir de 2013
Os políticos no poder são profissionais do otimismo (e a troika assina por baixo).
Pedro Passos Coelho não foge à regra.
Começou por nos dizer que 2011 seria o ponto mais fundo da crise, mas que a economia começaria a recuperar no segundo semestre de 2012.
Depois, adiou essa previsão para o segundo semestre de 2013, ano em que a economia já registaria um crescimento positivo, embora marginal.
Afinal, 2013 vai ser ainda um ano de profunda recessão, como foram 2011 e 2012.
Em três anos, a recessão acumulada toca os 7%, a quebra de investimento atinge os 30%. O primeiro-ministro diz-agora que em 2014 é que os resultadospositivos começarão a aparecer. Só os fanáticos passistas acreditam. Bem mais fácil é acreditar que Passos e Gaspar entendem, mo alguns economistas alemães, que a economia portuguesa necessita de uma desvalorização de 30% — e que estão a trabalhar afanosamente com esse objetivo
6.ª - As privatizações e reestruturações aumentam a concorrência e baixam os preços
É uma ideia martelada pela troika e pelo Governo: as privatizações introduzem maior eficiência nos mercados e fazem baixar os preços para os consumidores.
A realidade desmente-a.
Os preços da energia não desceram com a privatização da EDP.
Pelo contrário, subiram.
Em consequência, o discurso mudou.
Agora, a justificação é que os preços subiram menos do que subiriam se não houvesse a privatização.
Fraco consolo, sem comprovativo.
O que se sabe é que os chineses da Three Gorges pagaram mais, tendo em conta as receitas esperadas da elétrica nacional, que assentam nalgumas rendas que deveriam ser reduzidas.
A fatura ficou assim do lado dos contribuintes e clientes.
Veremos o que se vai passar com as taxas aeroportuárias, depois da privatização da ANA.
A reestruturação no sector dos transportes conduziu a uma explosão dos preços dos bilhetes.
E por aí fora.
A única conclusão evidente é que as privatizações e reestruturações só conduziram, até agora, a aumentos de preços a pagar pelos cidadãos.
Não há um único exemplo em que o contrário tenha acontecido.
7ª - O ajustamento traz confiança e vai atrair o investimento estrangeiro
O processo de redução dos nossos desequilíbrios é necessário para que os investidores voltem a ter confiança em Portugal.
A frase foi dita e redita vezes sem conta.
E a confiança é obrigatória para atrair o investimento estrangeiro, de que o país tanto necessita.
Ora se Vítor Gaspar insiste em dizer-nos que para o exterior o país voltou a ser confiável, a pergunta é então porque não surgem projetos de investimento estrangeiro no país.
Sim, há pequenas coisas, mas nada de significativo, nem em montantes, nem em matéria de criação de emprego, nem de aumento de exportações, nem de criação de valor acrescentado nacional, nem de inovação.
O que surge é investimento estrangeiro extra-União para controlar empresas que o Estado está a vender.
A reindustrialização que defende o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, é para já um mito.
E os únicos investimentos industriais de algum significado que ainda vão surgindo são de empresas portuguesas.
É pouco, mas é o que há.
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