O COLETE-DE-FORÇAS DO EURO - JOSÉ ANTÓNIO SARAIVA Política a Sério
20-04-2013 14:07O COLETE-DE-FORÇAS DO EURO
JOSÉ ANTÓNIO SARAIVA
Política a Sério

Todos os países da Europa do Sul se encontram mergulhados em profundas crises.
Portugal, a Espanha, a Itália, a Grécia, Chipre, mesmo a França, onde todos os dias fecham fábricas, têm a corda na garganta.
A situação é tão óbvia que não merece sequer discussão.
E daqui podem tirar-se duas ilações:
1. A crise não tem nada que ver com a cor política dos governos de cada um dos países. Portanto, mudar de Governo não adianta, e a instabilidade política só agrava os problemas (como a Grécia tem provado);
2. As políticas de austeridade, sendo inevitáveis (porque não há dinheiro disponível), não resolvem os problemas.
Na base deste imbróglio está o euro.
A questão é que países com graus de desenvolvimento muito diferentes não podem ter a mesma moeda.
Para o euro servir bem a uns, não se adequa a outros.
A grande ilusão que precedeu a entrada em vigor da moeda única (e do próprio mercado único) foi a ideia de que, através dos fundos estruturais, os países mais débeis aproximar-se-iam dos outros, conseguindo-se algum nivelamento.
E esse nivelamento das economias permitiria a existência de uma moeda comum.
Só que isso não sucedeu de todo.
Não se recupera um atraso histórico em uma ou duas gerações.
Os países do Sul continuaram economicamente débeis, apesar dos fundos estruturais.
E a moeda comum que entrou em circulação, adaptando-se às economias fortes dos países do Norte - Alemanha, Áustria, Holanda - não se mostrou adequada às economias periféricas do Sul.
Assim, estes países (que, curiosamente, correspondem mais ou menos ao antigo Império Romano do Ocidente) entraram em crise e em incumprimento crónico.
O euro forte tem logo à partida, entre outras implicações, um efeito óbvio: encarece as exportações, tornando os produtos menos competitivos no mercado global, e baixa o preço das importações, convidando os países a importar mais.
Ora, os dois efeitos concorrem, nos países economicamente mais débeis, para atrofiar a produção nacional.
Veja-se o que sucedeu em Portugal com a quebra da actividade industrial.
Grupos centrados na indústria, como a Sonae, fizeram uma mudança de agulha e viraram-se para a distribuição.
E, com mais ou menos nuances, todos os países da Europa do Sul estão a debater-se com este problema, a que se somam défices públicos cronicamente muito altos.
Deste modo, a situação só era resolúvel se houvesse transferência de verbas constante dos países do Norte para os países do Sul - e isso já acontece de certo modo.
A União Europeia e o BCE (para lá do FMI) estão a sustentar, através de empréstimos a juros baixos (ou mesmo de perdões de dívida), os altos défices e as dívidas dos países do Sul.
" Os portugueses, os gregos, os cipriotas fazem manifestações contra a troika ou contra a «prepotência da Sr.a Merkel», esquecendo-se de que é a Sr.a Merkel quem possibilita que os funcionários públicos e os pensionistas destes países continuem a receber os seus ordenados e pensões.
Sem os empréstimos da troika, já não haveria dinheiro para estas despesas.
Será que os manifestantes têm consciência disto?
Mas esta situação de transferência de capitais do Norte para o Sul é necessariamente transitória - não sendo sustentável indefinidamente.
Os contribuintes dos países do Norte não estão para pagar ad aeternum os défices crónicos dos povos do Sul.
Estamos, pois, num beco sem saída.
Donde só nos poderemos safar, não através de uma saída isolada do euro - que representaria uma catástrofe -, mas mercê de uma saída controlada dos países meridionais e a consequente criação de uma nova moeda adaptada às suas realidades.
O euro do Norte da Europa não serve aos países do Sul.
Querer arrastar a situação, só provocará mais conflitos e agravará os problemas.
Com o valor que tem, o euro é um colete-de-forças para Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre e mesmo França (a Irlanda é um caso à parte, pois é um país de cultura anglo-saxónica).
Não será isto evidente?
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